| Alfred Dreyfus | |
|---|---|
| 👁 Image Alfred Dreyfus em 1894 | |
| Nome completo | Alfred Dreyfus |
| Nascimento | 9 de outubro de 1859 |
| Morte | 12 de julho de 1935(75anos) |
| Nacionalidade | Francês |
| Etnia | Judeu |
| Ocupação | Militar |
| Serviço militar | |
| País | 👁 Image França |
| Serviço | Exército Francês |
| Anos de serviço | 1880–1918 |
| Patente | Tenente-coronel |
| Unidades | Artilharia |
| Conflitos | Primeira Guerra Mundial |
| Condecorações | Légion d'honneur[1] |
| Religião | Judaísmo |
| Assinatura | |
| 👁 Image | |
Alfred Dreyfus (AFI [alfrɛː drify]; Mulhouse, 9 de outubro de 1859 — Paris, 12 de julho de 1935) foi um capitão da artilharia do exército francês, de fé e origem judaica. Injustamente acusado e condenado por traição - depois anistiado e reabilitado - foi personagem central de um famoso episódio de conotações sociais e políticas, durante a Terceira República Francesa, que ficou conhecido como o caso Dreyfus.[2]
Origens e formação
[editar | editar código]Nascido em Mulhouse, na Alsácia, em uma família judaica alsaciana, Dreyfus cresceu num contexto marcado pela derrota de 1870. Após a anexação da região pelo Império Alemão (1871), seu pai, Raphaël Dreyfus, optou em 1872 por manter a nacionalidade francesa — decisão que, pelo Tratado de Frankfurt (10 de maio de 1871), exigia que os “optantes” deixassem a terra natal; a família passou então a viver fora da Alsácia e, em 1874, Alfred estabeleceu-se em Paris.[3][4][5]
Fiel à França desde jovem, decidiu seguir a carreira militar ainda adolescente, após testemunhar a entrada dos prussianos em Mulhouse aos 11 anos.[6] Ingressou na École polytechnique (1878) e, depois, na École de guerre; em 1892, concluiu esta última com menção très bien, classificado em 9.º lugar, sendo designado oficial estagiário no Estado-Maior do Ministério da Guerra.[7][8] Apesar do excelente desempenho, as partes subjetivas do processo seletivo — a chamada cote d’amour (nota de aptidão ao serviço de Estado-Maior) — prejudicaram-no por preconceito antissemita de avaliadores, incluindo um “5” atribuído pelo general Bonnefond, que lhe custou pontos no resultado final.[9]
Quando foi acusado de traição, em outubro de 1894, Dreyfus servia como oficial estagiário junto ao Estado-Maior do Ministro da Guerra — função que ajuda a explicar a visibilidade do caso que se seguiria.[10]
O Caso
[editar | editar código]Incriminado por um conjunto de documentos falsos, conhecidos como o le bordereau, seu caso repercutiu por todo o mundo. Inserida no quadro de uma campanha nacionalista e revanchista contra o Império alemão, que acabou por assumir características de antissemitismo,[11][12] com a condenação dos judeus como não-franceses, essa farsa foi sendo aos poucos esclarecida graças à atuação dos escritores Anatole France (1844-1924) e Émile Zola (1840-1902), além do brasileiro Rui Barbosa, uma das vozes pioneiras no caso. O incidente envolveu toda a sociedade francesa, enfraqueceu os monarquistas e abalou o antissemitismo nacional.[13]
A Prisão
[editar | editar código]Em 1894, o capitão Dreyfus foi acusado por setores monarquistas do Exército de ter vendido segredos militares ao Império Alemão. Preso em 15 de outubro de 1894, foi levado para a prisão do Cherche-Midi, no 6.º arrondissement de Paris. O processo teve início em 19 de dezembro e durou apenas três dias, ao fim dos quais Dreyfus foi condenado por unanimidade.
Em 5 de janeiro de 1895, foi publicamente degradado, tendo seus galões de oficial arrancados em uma cerimônia humilhante no pátio da Escola Militar. Pouco depois, em 17 de janeiro, foi transferido para a Île d'Yeu, e em 21 de fevereiro encaminhado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde deveria cumprir pena de prisão perpétua.[2][14]
A revelação
[editar | editar código]Em 13 de janeiro de 1898, no jornal L'Aurore, Émile Zola publicou a célebre carta aberta ao presidente da França, intitulada J'accuse...! (Eu acuso...!),[15] em que denunciava nominalmente os oficiais e autoridades responsáveis pela condenação de Dreyfus. O texto incendiou a opinião pública francesa e marcou o início de uma das maiores crises políticas da Terceira República.[14]
Zola apoiava-se nas descobertas do chefe do serviço secreto francês (a Seção de Estatística), o coronel Georges Picquart, que desde 1896 havia identificado a caligrafia do “bordereau” como sendo a de Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy e não a de Dreyfus. Suas conclusões contrariavam o Alto Comando, e Picquart acabou afastado, preso e transferido para a Tunísia, sob a acusação de violar o segredo militar.[16][17]
Dias antes, em 11 de janeiro de 1898, Esterhazy havia sido absolvido por um Conselho de Guerra, o que precipitou a publicação do artigo de Zola.[18] O escritor foi julgado poucas semanas depois, em 7 de fevereiro, nas Assises de la Seine, e condenado por difamação a um ano de prisão e ao pagamento de três mil francos. Para escapar à prisão, exilou-se em Londres no mês de julho e só regressou à França em 1899.[19][20]
Em agosto de 1898, o tenente-coronel Hubert-Joseph Henry confessou ter forjado uma das principais provas usadas contra Dreyfus — o documento que ficou conhecido como “faux Henry”. Poucos dias depois, suicidou-se na prisão do Mont-Valérien. O episódio revelou a profundidade da manipulação dentro do exército e acelerou o processo de revisão do caso.[21][14]
O processo foi então reaberto. Em 1899, um tribunal militar reunido em Rennes voltou a julgar Dreyfus e o condenou novamente, desta vez a dez anos de detenção, por “traição com circunstâncias atenuantes”.[22] O presidente Émile Loubet concedeu-lhe indulto em 19 de setembro do mesmo ano, e o governo aprovou uma lei de anistia, promulgada em 27 de dezembro de 1900, que extinguiu todos os processos relacionados à Affaire Dreyfus. A decisão dividiu os defensores de Dreyfus, muitos dos quais queriam sua plena absolvição judicial.[23][24]
O caso provocou uma profunda divisão na sociedade francesa, separando dreyfusards e antidreyfusards, e inspirou a fundação da Liga dos Direitos do Homem (LDH), em 4 de junho de 1898, criada para defender Dreyfus e promover a proteção dos direitos e liberdades individuais.[25][26]
Anos depois, em 12 de julho de 1906, a Corte de Cassação anulou definitivamente a condenação e reconheceu a inocência de Dreyfus. Ele foi reintegrado ao exército e retomou sua carreira militar. Em 15 de outubro do mesmo ano, recebeu o comando de uma unidade de artilharia em Saint-Denis.[27][28][29]
Em 4 de junho de 1908, durante a cerimónia de transferência das cinzas de Zola para o Panteão de Paris, Dreyfus foi atingido por um disparo e ferido no braço. O autor do atentado, o jornalista Louis Grégori, foi posteriormente absolvido da acusação de tentativa de homicídio.[30][31]
Dreyfus na Primeira Guerra Mundial
[editar | editar código]Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Dreyfus foi mobilizado como oficial de reserva (chef d’escadron, equivalente a major) de artilharia. Inicialmente serviu no estado-maior da artilharia da zona fortificada de proteção de Paris. A partir de 1917, foi destacado para o parque de artilharia da 168.ª Divisão de Infantaria e atuou no front, notadamente em Verdun e no Chemin des Dames. Em setembro de 1918, foi promovido a tenente-coronel, e, em 9 de julho de 1919, recebeu a roseta de oficial da Legião de Honra.[32][33][34]
Morte e posteridade
[editar | editar código]Alfred Dreyfus morreu em Paris em 12 de julho de 1935 e foi sepultado no Cemitério do Montparnasse.[14][35] Deixou a viúva Lucie Eugénie Hadamard (1869–1945), com quem se casara em 1890, e dois filhos: Pierre Léon Dreyfus (1891–1946) e Jeanne Dreyfus Lévy (1893–1981).[36][37]
Durante a ocupação alemã da França, Lucie Dreyfus viveu escondida num convento em Valence, auxiliada por amigos e membros da Resistência Francesa.[38] A neta do casal, Madeleine Lévy (1918–1943), filha de Jeanne, atuou na Resistência, colaborando com a Union générale des israélites de France e no abrigo de crianças judias. Foi presa pela Gestapo em 1943, deportada do Campo de Drancy para Auschwitz e morreu no campo, provavelmente de tifo.[39] O nome de Madeleine figura na lápide de Alfred e Lucie no Cemitério do Montparnasse.[40]
Filmes Relacionados
[editar | editar código]- L'Affaire Dreyfus, Georges Méliès, Stumm, França, 1899
- Trial of Captain Dreyfus, Stumm, Estados Unidos, 1899
- Dreyfus, Richard Oswald, Alemanha, 1930
- O Caso Dreyfus, Kraemer FW, Rosmer Milton, Estados Unidos, 1931
- A Vida de Emile Zola, Estados Unidos, 1937
- I Accuse!, José Ferrer, Inglaterra, 1958
- Prisoner of Honor, Ken Russell, Estados Unidos, 1991 (centra-se nos esforços do coronel Picquart a fim de anular a sentença de Alfred Dreyfus; o coronel Picquart foi interpretado pelo ator americano Richard Dreyfuss, que cresceu pensando que Alfred Dreyfus e [ele] eram da mesma família)
- L'Affaire, Dreyfus, Yves Boisset, França, 1995 (lançado na Alemanha sob o título Die Affäre de Dreyfus)
- J'accuse, Roman Polanski, França, 2019
Galeria
[editar | editar código]Ver também
[editar | editar código]- Antijudaísmo
- Antissemitismo
- Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy - O verdadeiro culpado
- L'Affair Dreyfus
Referências
- ↑ «A rehabilitação de Dreyfus». Lisboa: O Século. 1906. pp.732–733
- 1 2 Bredin, Jean-Denis - O Caso Dreyfus - Ed. Scritta - 1995
- ↑ «Fiche 1 — Alfred Dreyfus» (PDF) (em francês). Maison Zola – Musée Dreyfus
- ↑ «Acte d'accusation contre le capitaine Dreyfus (Le Figaro, 8 août 1899)» (em francês). Wikisource
- ↑ «Alfred Dreyfus (1859–1935)» (em francês). Service historique de la Défense
- ↑ «Alfred Dreyfus — Biographie» (em francês). Judaïsme d’Alsace et de Lorraine
- ↑ «Alfred Dreyfus — Biographie» (em francês). Judaïsme d’Alsace et de Lorraine
- ↑ «Fiche 1 — Alfred Dreyfus» (PDF) (em francês). Maison Zola – Musée Dreyfus
- ↑ «Fiche 2 — Avant la visite: Dreyfus arrêté» (PDF) (em francês). Maison Zola – Musée Dreyfus
- ↑ «Fiche 2 — Avant la visite: Dreyfus arrêté» (PDF) (em francês). Maison Zola – Musée Dreyfus
- ↑ Pagès, Alain (2021). O Caso Dreyfus: Verdades e Lendas (PDF). Campinas: Editora Unicamp
- ↑ «Dreyfus (affaire) – Le sens de l'histoire: de la crise nationaliste au progrès démocratique». Encyclopædia Universalis (em francês). Consultado em 5 de outubro de 2025
- ↑ BBC Radio 4, 8 October 2009,In Our Time, Melvyn Bragg; Robert Gildea, Professor of Modern History at Oxford University; Ruth Harris, Lecturer in Modern History at Oxford University; Robert Tombs, Professor of French History at Cambridge University. (em inglês) Página visitada em 25 de Maio de 2022
- 1 2 3 4 BREDIN, Jean-Denis (1995). O Caso Dreyfus. São Paulo: Scritta
- ↑ «'J'accuse…!' (L'Aurore, 13 janvier 1898)». Gallica – Bibliothèque nationale de France (em francês). Consultado em 5 de outubro de 2025
- ↑ «Georges Picquart». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Marie-Georges Picquart, héros méconnu de l'affaire Dreyfus». RetroNews – BnF (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ ««J'accuse…!» de Zola en 1898». RetroNews – BnF (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «"J'accuse"». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Zola au jour le jour». Bibliothèque nationale de France (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Émile Zola, La Vérité en marche (cap. "Huit mois après")». Project Gutenberg (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «La cour de cassation réhabilite le capitaine Dreyfus». FranceArchives (Ministère de la Culture) (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «L'affaire Dreyfus». Assemblée nationale (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ ««Loi d'amnistie», Journal officiel, 28 décembre 1900». Galerie Paul Viollet – Université Paris 1 (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Uma breve história da LDH». LDH – site oficial (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ ««La Ligue des droits de l'homme: 120 ans d'histoires»». Histoire@Politique (OpenEdition) (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Déclaration des droits de l'homme et du citoyen (passagem sobre a reabilitação de Dreyfus em 12/07/1906)». Larousse – Grande Encyclopédie (em francês). Consultado em 5 de outubro de 2025
- ↑ «Cour de cassation, Chambres réunies — Débats (15 juin–12 juillet 1906)». Gallica – BnF (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Alfred Dreyfus – Biographie». Judaïsme d’Alsace-Lorraine (em francês). Consultado em 5 de outubro de 2025
- ↑ Campos Posada, Ainhoa (4 de maio de 2020). «El caso Dreyfus: el complot antisemita que dividió Francia». National Geographic (em castelhano). Consultado em 25 de maio de 2022
- ↑ (em português) Terramagazine – Zola, Dreyfus e o Panteão. Acessado em 25 de maio de 2022.
- ↑ «Alfred Dreyfus — biografia (seção «Après la réhabilitation»)». Wikipédia (francês) (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «DREYFUS Alfred (X1878)». École polytechnique — Bibliothèque centrale (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Base Léonore — Dossier de Légion d'honneur: Alfred Dreyfus». Archives nationales (França) (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ Alfred Dreyfus (em inglês) no Find a Grave[fonte confiável?]
- ↑ «Alfred et Lucie Dreyfus». Musée Dreyfus, Médan (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Lucie Dreyfus (Hadamard)». AJPN – Anonymes, Justes et Persécutés durant la période nazie (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Lucie Dreyfus, résistante et témoin». Fondation pour la Mémoire de la Shoah (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Madeleine Lévy (1918–1943)». Mémorial de la Shoah (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ «Cimetière du Montparnasse – tombe d'Alfred et Lucie Dreyfus». Ville de Paris (em francês). Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ (em francês) Dreyfus - Pour ou contre Dreyfus. Página acessada em 3 de Novembro de 2010.
Bibliografia
[editar | editar código]- Begley, Louis — O Caso Dreyfus: Ilha do Diabo, Guantánamo e o pesadelo da história — São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- Dreyfus, Alfred — Diários completos do capitão Dreyfus — Org. e apresentação: Alberto Dines. Imago. 1995.
- Pagès, Alain — O Caso Dreyfus: Verdades e Lendas — Campinas: Editora Unicamp, 2021.
- Reinach, Joseph — Histoire de l’Affaire Dreyfus — Paris: Fasquelle, 1901–1911.
Ligações externas
[editar | editar código]- Dreyfus Reabilitado
- Referências a Alfred Dreyfus nos jornais europeus da época -
- Manuscritos e cartas pessoais de Alfred Dreyfus
- Plataforma online no site Musée d'art et d'histoire du judaïsme
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