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Perna cabeluda
Personagem de Lenda urbana recifense
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Ilustração da perna cabeluda.
Informações gerais
Primeira apariçãoDiario de Pernambuco
(10 de dezembro de 1975)
Criado(a) porRaimundo Carrero
(versão ficcional, 1976)
Informações pessoais
OrigemRecife, Brasil
Características físicas
EspécieEntidade sobrenatural

A perna cabeluda é uma lenda urbana brasileira, originária de Recife, que emergiu na década de 1970 durante o período da ditadura militar no Brasil. A criatura é descrita como uma perna humana decepada, coberta por pelos escuros e espessos, que se move autonomamente pelas ruas da cidade, atacando transeuntes com rasteiras e chutes durante a noite.[1] Considerada uma das lendas urbanas mais conhecidas do imaginário recifense, foi reapropriada ao longo das décadas em diversas adaptações culturais, incluindo o filme O Agente Secreto (2025), que a incorporou como um elemento narrativo central.[2]

História

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Contexto histórico e jornalístico

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A lenda da perna cabeluda emergiu em um contexto histórico específico da ditadura militar brasileira, quando a censura prévia estava em pleno vigor. O Diario de Pernambuco, fundado em 1825 e reconhecido como o jornal diário em circulação mais antigo da América Latina,[3] enfrentava dificuldades para preencher seus espaços editoriais devido ao corte sistemático de matérias pelos censores.[4]

Durante esse período, diversos jornais brasileiros desenvolveram estratégias criativas para sinalizar a censura sem confrontá-la diretamente. Enquanto O Estado de S. Paulo publicava receitas culinárias no lugar de notícias censuradas e a Folha de S.Paulo utilizava trechos de Os Lusíadas e outros poemas clássicos,[5] o Diario de Pernambuco optou por uma abordagem diferente: a publicação de narrativas ficcionais sobre eventos sobrenaturais.[4]

Primeiras reportagens: a "perna fantasma" de Tiúma

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O primeiro registro documentado ocorreu nos dias 10 e 11 de dezembro de 1975, quando o Diario de Pernambuco publicou uma série de matérias relatando o suposto aparecimento de uma "perna fantasma" na residência de José Luís Borges e seu filho Wanderley (ou Valderez), localizada na "Rua Amendoim, n. 13", no bairro de Tiúma, em São Lourenço da Mata.[2][6][7]

As matérias, publicadas sem autoria, relatavam que a perna teria começado a aparecer no final de novembro, manifestando-se principalmente nas paredes da casa, movimentando-se por diversos cômodos, pendurando-se no telhado e, segundo relatos, chegando a se transformar em formas de animais como peixe, borboleta ou morcego.[6] O fenômeno teria sido notado primeiramente pelo jovem, que inicialmente não foi acreditado, mas logo outras pessoas, incluindo seu pai e diversos moradores da localidade, teriam também testemunhado as aparições.[2][7][8]

A descrição da perna como sendo provida de pelos aparece primeiramente no relato de Adélia Maria do Nascimento, empregada doméstica que afirmava ter visto primeiro "um pé e, depois, a perna cabeluda".[7] É também no relato de Adélia, ao afirmar que um homem que tentou agarrar a entidade teria levado "um tapa no rosto", que surge o comportamento violento da perna, que se tornaria a característica principal da criatura no imaginário popular.[7][8][4]

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Uma Chevrolet Veraneio transformada em carro alegórico no Carnaval do Recife de 1976. Na escultura acima do carro, o tubarão do filme homônimo leva a perna cabeluda na boca.

Criação ficcional e popularização

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A história rapidamente ganhou repercussão através das rádios locais e da literatura de cordel. O radialista Jota Ferreira afirma ser o responsável pela popularização da lenda através de seu programa com Geraldo Freire na Rádio Repórter do Recife, onde traria relatos de vítimas da criatura que estariam em atendimento no Hospital da Restauração, apesar de ser difícil precisar o período exato das transmissões no rádio, por não terem sido gravadas.[2]

Em 21 de janeiro de 1976, o colunista Paulo Fernando Craveiro já lamentava que o povo pernambucano, tendo sofrido há poucos meses com os horrores da enchente de 1975 e uma seca que atingia o estado naquele início de ano, era agora assombrado pela "infernal história de uma Perna Cabeluda que anda por aí amedrontando as pessoas".[2][9] Na coluna, Craveiro afirma que a literatura de cordel já trazia histórias sobre a criatura, e relatava, a partir de testemunho da poetisa Deborah Brennand, que o assunto virara tema de discussão nas filas de banco de Recife.[9]

Em 1º de fevereiro, o escritor Raimundo Carrero, então colaborador do Diario de Pernambuco, publicou um conto de ficção intitulado A Perna Cabeluda em sua coluna "Romance Policial", uma seção dominical dedicada a reportagens especiais e ficção, acompanhada de uma ilustração da criatura feita pelo cartunista Wilde Portela.[4] A coluna fazia parte de uma estratégia do editor Og Fernandes (futuro Ministro do Superior Tribunal de Justiça) para preencher espaços deixados pela censura através de narrativas ficcionais que, embora fantasiosas, ressoavam simbolicamente com a violência e o clima de medo vivenciados pela população durante a ditadura.[2][4][10][11]

O jornalista Ricardo Noblat registrou que o cordelista José Soares vendeu mais de 39 mil exemplares de seus folhetos A Perna Cabeluda de Tiuma e São Lourenço e A Perna Cabeluda de Olinda (publicado em 4 de fevereiro de 1976) durante os primeiros cinco meses daquele ano.[12][13][14][15]

Os compositores Dimas Sedícias e Joel Santos lançaram no Carnaval do Recife de 1976, na voz do cantor Ray Miranda, o frevo-canção "A Perna Cabeluda", inspirada nos cordéis de Soares.[16][17] Em uma competição de carros alegóricos durante o Carnaval daquele ano na cidade, um dos finalistas foi um Chevrolet Veraneio decorado com um enorme tubarão (inspirado no filme de Steven Spielberg, lançado meses antes) carregando uma escultura da perna cabeluda na boca.[18] Entre os carnavais de 1976 e 1978, surgiram troças carnavalescas com o nome "Perna Cabeluda", carregando estandartes com ilustrações referentes à criatura nos bairros de Apipucos (Recife) e em municípios como Olinda, Moreno, Nazaré da Mata e Saloá.[19][20][21]

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Estandarte levado pelo elenco de "O Agente Secreto" ao Festival de Cannes 2025. No canto inferior esquerdo, uma imagem da perna cabeluda.

Legado cultural

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Folião carregando uma réplica da Perna Cabeluda durante o Carnaval de 2026, em São Paulo.

Em 2025, o filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, incorporou a Perna Cabeluda como elemento central da narrativa. Ambientado no Recife durante o carnaval de 1977, o longa-metragem integra a lenda à sua trama, que tem como pano de fundo a ditadura militar. No filme, a descoberta de uma perna humana dentro da boca de um tubarão faz com que a imprensa fictícia comece a relacionar o caso policial com as narrativas populares da Perna Cabeluda. A produção conferiu tamanha importância à figura que levou o modelo da perna — usado em uma sequência do filme em que a entidade ataca homens e mulheres que mantêm relações sexuais à noite no Parque 13 de Maio — para as primeiras exibições do filme no Cine São Luiz, no Recife, e durante sua participação no Festival de Cannes.[2][4][22][23][24]

Paralelamente, a lenda também foi resgatada no filme Recife Assombrado 2 - A Maldição de Branca Dias (2025), dirigido por Adriano Portela. Como parte da estratégia de marketing para o lançamento do filme, uma escultura de oito metros de altura da perna cabeluda foi instalada no Marco Zero, no bairro do Recife, demonstrando o poder contínuo da figura como ícone cultural e ferramenta de engajamento com o público.[25][26]

A banda de manguebeat Chico Science & Nação Zumbi mencionou a Perna Cabeluda na canção "Banditismo Por Uma Questão de Classe" de 1994, do álbum Da Lama ao Caos. A música faz referência à lenda como parte integral do tecido urbano de Recife, ao citar: "Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha / Não tinha medo da Perna Cabeluda".[27]

Referências

  1. Braga, João Paulo Reis; Ecco, Clóvis (29 de dezembro de 2023). «A perna cabeluda: Violência sobrenatural e factual na cidade do Recife». Universidade Católica de Pernambuco. PARALELLUS - Revista de Estudos de Religião (35): 539–559. ISSN2178-8162. doi:10.25247/paralellus.2023.v14n35.p539-559. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  2. 1 2 3 4 5 6 7 Fernandes, Felipe (31 de outubro de 2025). «Uma assombração no tapete vermelho». Revista Piauí. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  3. «Diário de Pernambuco é declarado patrimônio cultural material do Brasil». Planalto. Presidência da República. 5 de março de 2024. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  4. 1 2 3 4 5 6 Parente, Marília (7 de novembro de 2025). «Realismo mágico para driblar a censura». Diário de Pernambuco. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  5. «Há 50 anos, Estadão publicava receitas de bolo para driblar censura». Folha de S.Paulo. 13 de dezembro de 2018. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  6. 1 2 «Perna fantasma surge em moradia de Tiúma». Diário de Pernambuco (332): 5. 10 de dezembro de 1975. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  7. 1 2 3 4 «"Perna fantasma" já é problema policial». Diário de Pernambuco. Ano 150 (333): 5. 11 de dezembro de 1975. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  8. 1 2 Moura, Eduardo (10 de novembro de 2025). «Antes de 'O Agente Secreto', 'perna cabeluda' assombrou Recife e animou Carnaval». Folha de São Paulo. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  9. 1 2 Craveiro, Paulo Fernando (21 de janeiro de 1976). «Perna Cabeluda». Diário de Pernambuco. Ano 151 (20): 9. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  10. «Ministro Og Fernandes». Superior Tribunal de Justiça. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  11. «Ministro Og Fernandes é empossado como vice-presidente do STJ». Superior Tribunal de Justiça. 29 de agosto de 2022. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  12. Noblat, Ricardo (8 de maio de 1976). «Defesa Natural». Revista Manchete (1255): 103. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  13. «A perna». Segundo Caderno. Diario de Pernambuco. Ano 151: 5. 14 de fevereiro de 1976. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  14. Soares, José (1976). A Perna Cabeluda de Olinda. Col: Poeta Reporter. Cordel. Recife: [s.n.] 8páginas. LC0537
  15. Soares, José. A Perna Cabeluda de Tiuma e São Lourenço. Col: Poeta Reporter. Cordel. Recife: [s.n.] 8páginas. LC3480
  16. Jorge, Fernando (18 de fevereiro de 1976). «Apontando o sucesso». O assunto é Carnaval. Diario da Manhã. Ano XLVIII (8693): 10. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  17. «Tema musical é a "perna"». Primeiro Caderno. Diario de Pernambuco. Ano 151 (35): 5. 5 de fevereiro de 1976. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  18. Ribeiro, Helena (29 de fevereiro de 1976). «Carros decorados animam carnaval». Domingo. Diario de Pernambuco. Ano 151 (59): 7. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  19. «"Perna Cabeluda" vira troça». Segundo Caderno. Diario de Pernambuco. Ano 151: 5. 10 de fevereiro de 1976. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  20. «"Perna Cabeluda" vai sair». Diario da Manhã. Ano XLIV (8998). 19 de fevereiro de 1977. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  21. «Moreno vibra com a "Perna"». Diario de Pernambuco. Ano 153 (36): A-9. 8 de fevereiro de 1978. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  22. Moura, Eduardo (10 de novembro de 2025). «Antes de 'O Agente Secreto', 'perna cabeluda' assombrou Recife e animou Carnaval». Folha de São Paulo. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  23. Santos, Larissa (11 de novembro de 2025). «"O Agente Secreto": entenda a lenda urbana da "perna cabeluda"». CNN Brasil. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  24. «'O agente secreto': entenda a história da 'perna cabeluda', lenda urbana citada no filme de Kleber Mendonça Filho». O Globo. 10 de novembro de 2025. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  25. Vieira, Edilson (13 de outubro de 2025). «Recife ganha "Perna Cabeluda" gigante em campanha de lançamento de filme de terror». Tribuna Online. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  26. Leonel, Bartô (13 de outubro de 2025). «Perna Cabeluda gigante: saiba por que escultura está exposta no Recife Antigo». Diario de Pernambuco. Consultado em 12 de janeiro de 2025
  27. Minduri, Loianne Quintela (2016). Nos passos do Mangue Beat: rastros e ecos de uma identidade cultural desde os diálogos com os estudos culturais britânicos (Dissertação de Mestrado profissional). Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia. p.145-148

Ligações externas

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